
A IMAGEM NÃO ADEQUADA
(como tantas vezes acontece).
O José não fumava, não bebia, comia moderadamente, deitava-se cedo...
Um acidente atirou com ele para o hospital. Suportou relativamente bem o internamento e a operação que sofreu. Voltou ao nosso convívio, sendo "quase"o mesmo, amável, cuidadoso, um ser "tout" especial. De uma correcção sem mácula. Mas tinha uma história. Convenceu-se que na vida, para além da integridade, tinha-se que ser "imutável". No seu porte majestoso, direito, nada mudava. No seu discurso, também não. No seu pensamento "tudo tinha que ser assim"! Não havia argumento que lhe mudasse o ângulo de visão, que alterasse as cores e os sons. Exigente, vivia, veio-se a perceber mais tarde, para a sua, mesmo e só para a "sua" imagem. Os acontecimentos que ocorriam tinham nele, um crítico ou um apologista, conforme a tonalidade dominante. O tempo foi passando, tirando-lhe resistência, mas mantendo a energia suficiente para se manter "não maleável". Na aceitação há muito conseguida de todos nós, que víamos nele só as qualidades, trato afável, simpático, acolhedor, mesmo bondoso, foi um choque, quando começou, dia após dia, a perder aquilo que o tinha distinguido, mas mantendo e disso fazendo anúncio, a sua inflexibilidade. Após a perda da sua companheira, de quase cinquenta anos, profundamente ligada, por ele, à sua imagem, ainda titubeou um par de anos, mas para além do que considerava "imutável", tudo se desmoronou.E nós, que admiravamos as qualidades de José, viemos encontrar então uma personalidade completamente diferente, chocante, violenta,arrogante. E perguntávamos incrédulos "o que aconteceu ao José"(?). Claro que veio a demenciar. Fez os novos fármacos para a demência, os neurolépticos, mas continuou ainda a manter a sua frase tipo "eu nunca mudo"! Um dia faleceu num hospital com uma pneumonia.
Perguntarão, provavelmente, porque nos trouxe esta história, pois não é um caso típico de após cura? Não penso assim, parece-me bem que foi uma vítima da educação e do prémio social que tinham,afinal, uma outra face, e deixo uma pergunta no ar. Se ele tivesse usado a plasticidade do seu pensamento, se moldasse e adaptasse a cada momento da vida, suportasse as contrariedades e as perdas da vida, teria ele, através de um processo adaptativo, próprio da espécie humana, mudado a sua personalidade e demenciado? Que pensam sobre esta história, bem real, que talvez seja mais frequente do que se pensa? Tudo, tem a ver com tudo, e não é admissível que se aceite a demência como um final para a vida, embora, infelizmente, assim muitas vezes aconteça.
Talvez eu não queira admitir o que aconteceu ao José!
Um obrigado antecipado pelas vossas opiniões e sugestões.
AH
Sem comentários:
Enviar um comentário